A galinha e a águia
- Categoria: Histórias com sumo
- Publicado em Quinta, 14 Julho 2011 11:17
- António Martins
- Visitas: 454
Esta é uma história que vem de um pequeno país da África Ocidental, do Gana, narrada por um educador popular, James Aggrey, nos inícios deste século, quando se davam os choques pela descolonização.
"Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro, para o colocar em cativeiro, na sua casa. Conseguiu apanhar um filho de águia e colocou-o no galinheiro juntamente com as galinhas. Este cresceu como uma galinha.
Depois de cinco anos, esse homem recebeu na sua casa a visita de um naturalista.
Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De fato, disse o homem:
- É uma águia. Mas eu criei-a como uma galinha. Ela não é mais águia. É uma galinha como as outras.
- Não, retrucou o naturalista:
- Ela é e será sempre uma águia. Este coração fala-a um dia voar às alturas.
- Não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e, desafiando-a, disse:
- Já que tu de facto és uma águia, já que tu pertences ao céu e não à terra, então abre as tuas asas e voa!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente o redor, viu as galinhas lá em baixo, comendo grãos e pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu disse-lhe, ela virou uma simples galinha!
- Não, tornou a insistir o naturalista:
- Ela é uma águia. E uma águia e sempre será uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia ao tecto da casa.
Sussurrou-lhe:
- Águia, já que tu és uma águia, abra as tuas asas e voa!
Mas, quando a águia viu lá em baixo as galinhas comendo no chão, pulou e foi parar junto delas.
O camponês sorriu e voltou a carga:
- Eu havia-lhe dito, ela virou galinha!
- Não, respondeu firmemente o naturalista:
- Ela é águia e possui sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez.
Amanhã fa-la-ei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram-se bem cedo. Pegaram na águia e levaram-na para o alto de uma montanha. O sol estava a nascer e dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que tu és uma águia, já que tu pertences ao céu e não à terra, abre as tuas asas e voa!
A águia olhou ao redor. Tremia, como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então, o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, de sorte que os seus olhos pudessem se encher de claridade e ganhar as dimensões do vasto horizonte. Foi quando ela abriu suas potentes asas. Ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto e voar cada vez mais para o alto. Voou. E nunca mais retornou."
Existem pessoas que nos fazem pensar como galinhas. E ainda até pensamos que somos efectivamente galinhas. Porém é preciso ser águia. Abrir as asas e voar. Voar como as águias. E jamais se contentar com os grãos que deitam junto aos pés para comer."
(Extraído de artigo publicado pela Folha de São Paulo, por Leonardo Boff)









