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Natal - Partilha

Bendita seja a data que une a todo o mundo numa conspiração de amor. (Hamilton Cright)

Viver o Natal é celebrar e sentir esta data como esta oportunidade universal de ver mais fundo e olhar com o máximo de verdade a realidade que nos envolve.

Os sentimentos que partilhamos no Natal devem relembram-nos a nossa condição humana e deverão apelar à nossa consciência para revermos as nossas prioridades, valores e objectivos principais da nossa existência.

O Natal não pode reduzir-se apenas a pinheirinhos enfeitados, a luzes psicadélicas e muitos dourados. O Natal não pode resumir-se a um pai natal bem nutrido e feliz esperado nas casas das crianças cujos pais têm posses, com presentes egoisticamente exigidos… O Natal não pode ser uma fantasia de solidariedade aparente criada por grandes cadeias comerciais que sob a capa de alguma caridade facturam milhões e partilham tostões.

Celebramos o Nascimento de Jesus e ponto final. E por isso vimos à Igreja. Não queremos celebrar o aniversário de alguém “sem estar com” ou buscar esse aniversariante. Não queremos ser como aqueles que vivem de aparências e celebram aquilo que não sabem. Alegram-se com aquilo que não entendem e apenas colhem vazio e sem sentido!

Hoje, estamos aqui em maior número (e, sobretudo, com mais entusiasmo e alegria), para celebrar o mistério do nascimento do Filho de Deus no mundo dos homens.

É o nascimento do Deus connosco, da Luz que vence as trevas, do Messias que liberta e salva.

E celebramos o seu nascimento, porque, passados dois mil anos, Jesus permanece vivo no meio de nós. Ele continua misteriosa e admiravelmente presente e actuante na nossa vida e na nossa história.

            Hoje, paramos a contemplar o mistério e o alcance deste nascimento (os desígnios de Deus que nele se revelam e concretizam). O Filho de Deus nasce de uma mulher, aparece como homem entre os homens, habita no mundo dos homens e convive com eles.

            Este foi o modo que Deus escolheu para se tornar próximo dos homens, para lhes comunicar o seu amor e para os salvar. E nós ficamos a pensar e concluímos: quanto o homem é importante para Deus, quanto valemos aos seus olhos e quanto Ele nos ama!

2. Quando paramos a meditar e a contemplar o nascimento de Jesus, surpreende-nos e confunde-nos que Ele tenha nascido numa gruta, num curral de animais.

Deus (que nós confessamos e reconhecemos como Pai providente) não poderia ter providenciado um lugar mais digno para o nascimento do seu Filho?! É claro que podia, mas os homens não deixaram.

O egoísmo dos homens limita o poder de Deus, porque Deus respeita a liberdade dos homens.

           

O evangelista diz-nos que a manjedoura foi o último recurso, pois “não havia lugar para eles na hospedaria”. Ao recusarem um lugar a Maria e a José, os habitantes de Belém, sem o saberem, obrigaram o Filho de Deus a nascer como um excluído e marginalizado da sociedade.

            Este facto revela-nos que os homens, ainda que não tenham plena consciência disso, rejeitam Jesus em todos aqueles que obrigam a viver à margem da sociedade.

Mas, ao aceitar nascer como pobre e desprezado, Jesus revela, desde o início, que vem precisamente para mudar a sorte daqueles que são vítimas das injustiças sociais, testemunhando-lhes a predilecção de Deus, revelando-lhes a sua dignidade e defendendo os seus direitos.

           

O Filho de Deus (ao nascer na pobreza de uma gruta) quis ensinar aos homens que a grandeza de Deus não pode ser entendida à luz dos critérios da grandeza dos reis e dos senhores deste mundo, nem o Céu pode ser entendido à imagem da sumptuosidade e da riqueza dos palácios desta terra.

 

A grandeza de Deus é o seu amor e é o amor de Deus que faz a grandeza do Céu!

 

Na simplicidade e na pobreza da gruta, melhor do que em qualquer outro lugar, se manifesta, aos olhos dos homens que acreditam, a grandeza da simplicidade e a riqueza do amor de Deus.

 

 

            Quando paramos a contemplar o nascimento de Deus, (um acontecimento que viria a influenciar tão positivamente a história) impressiona-nos e surpreende-nos que tenha ocorrido na maior discrição, sem qualquer publicidade.

 

Ø  Antes, além de Maria e José, só Isabel sabe que Aquele que vai nascer é Filho de Deus. Quando as pessoas de Belém lhe fecham a porta, Maria poderia ter protestado e reclamado, dizendo: ”eu vou dar à luz o Filho de Deus”. Porém, não quis tirar vantagens humanas da sua missão divina. Mas ainda que o tivesse dito, ninguém iria acreditar nas suas palavras.

 

Ø  Após o seu nascimento, Maria e José também não enviam mensageiros a divulgar a notícia. Apenas alguns pastores foram informados, por um anjo, do nascimento do Salvador. Os últimos do povo são os primeiros a ver e a descobrir quem é Aquele Menino; os mais pobres de todos são os primeiros a partilhar os seus bens com Ele.

 

Faz pensar que Deus, apesar de ser Deus ou precisamente porque é Deus, nunca se manifesta nem se impõe aos homens de um modo arrasador. (Pelo contrário, sempre de um modo muito discreto, como é próprio de quem ama e de quem respeita a liberdade dos homens).

 

Deus revela-se o suficiente para que os homens o possam encontrar, mas quer que esse encontro seja o resultado de uma procura desejada e livre do homem.

           

Assim, quando Jesus nasce, Deus não realiza nenhuma obra extraordinária que chame a atenção das pessoas para o acontecimento de Belém. E Jesus também não diz quem é, muito menos reclama que o adorem como Deus e o tratem como um Senhor.

             Então hoje, só aqueles que O procuram, escutando a sua palavra e acolhendo o seu amor, descobrem a sua verdadeira identidade e acreditam nele como o Filho de Deus e o Salvador dos homens. Só esses sentem verdadeiramente a alegria da salvação de Deus.

 

            Ao dirigir-se aos pastores, o Anjo começa por lhes dizer ”anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo”.

O nascimento de Jesus é alegria, não apenas para os pastores mas para todo o povo, porque Ele é o Salvador de todos os homens.

Com Jesus, realizam-se as palavras do profeta Isaías: ”multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento”, porque Ele vem quebrar o jugo que pesava sobre o povo, dando início a um mundo novo, um mundo de liberdade, de amor, de justiça e de paz.

Esse é o mundo que Deus quer para o homem e em que o homem se sente bem e vive feliz.

 

 “Anuncio-vos uma grande alegria: Hoje nasceu o Salvador”. Hoje, este anúncio é dirigido a cada um de nós: “Hoje nasceu o Salvador”. E por que nasceu para nós, hoje, Ele quer nascer em nós! E nasce em nós pela fé, cresce e torna-se visível através do amor.

Este nascimento exige de nós:

·         abertura à Palavra de Deus (Jesus nasce e continua presente através do Evangelho);

·         comunhão (pois Jesus nasce onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome);

·         abertura ao próximo (pois Jesus nasce em cada pessoa a quem devemos fazer o bem: “tudo o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a mim que o fazeis”);

·         participação na vida sacramental da Igreja (pois Jesus nasce para nós na Eucaristia e em todos os sacramentos);

É urgente e necessário que Jesus nasça em nós pois só assim poderá nascer no mundo dos homens. E através dos crentes, Jesus poderá nascer como:

·         LUZ entre aqueles que vivem nas trevas;

·         VERDADE entre aqueles que caminham no erro e na mentira; 

·       CAMINHO entre aqueles que vivem uma vida sem sentido;

·       VIDA para aqueles que vivem sem esperança;

·       PAZ  entre aqueles suportam os horrores da guerra;

·       AMOR entre aqueles que vivem dominados pelo ódio;

·       SOLIDARIEDADE entre aqueles que suportam a fome e a miséria;

·       JUSTIÇA entre aqueles que são explorados;

·       LIBERDADE entre aqueles que vivem oprimidos,

·       IGUALDADE entre aqueles que sofrem a segregação social, religiosa ou politica; 

·       FILHOS DE DEUS entre aqueles que desconhecem a Deus ou d’Ele se afastaram.

 

7. Só assim o mundo dos homens será verdadeiramente humano, só assim os ideais e aspirações em ordem a alcançar a autêntica felicidade, serão um dia realidade para todos os homens.

Oxalá, possamos sair desta celebração com os mesmos sentimentos com que os pastores saíram da gruta de Belém: que também nós glorifiquemos e louvemos a Deus por tudo o que vimos e ouvimos. Que o amor nasça na nossa vida.

Façamos um esforço por neste natal trocar a palavra crise pela palavra esperança. Temer é antecipar… não devemos viver no medo temos de manter a chama da esperança bem forte dentro de nós!

Que este natal não seja apenas uma data que passa mas seja um estado de espírito a orientar-nos a vida permanentemente.

Feliz Natal e próspero ano – as palavras são sempre as mesmas mas que o espírito com que as partilhamos seja mais sincero e comprometido.

Não deixemos o Menino na gruta, levemo-lo na nossa vida e deixemo-lo crescer em nós. Deste modo, a nossa vida será um testemunho credível, entre os homens, de que já nasceu o Salvador do mundo.

Assim, provaremos que este Natal também foi para nós.

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